A Geografia da Riqueza Mineral Brasileira
Todos os meses, empresas de mineração pagam à União, aos Estados e Municípios uma compensação pela exploração de recursos minerais — a CFEM. Este painel busca identificar, para onde vai esse dinheiro e o que ele representa para o país.
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Imposto, o preço sobre a terra
A Constituição de 1988 tornou os recursos minerais bens da União — distintos da propriedade do solo. Quando uma empresa extrai minério, ela não é dona da jazida: paga para explorá-la. Esse pagamento é a Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), criada pela Lei 7.990/1989 e recalculada pela Lei 13.540/2017.
Contudo, o CFEM não repara o dano ambiental causado pela exploração, ele é na verdade uma contrapartida financeira pela exploração do patrimônio mineral finito.
Atualmente o órgão arrecada impostos sobre 273 substâncias minerais em todo o país, o valor arrecadado é distribuído mensalmente pela Agência Nacional de Mineração (ANM) entre União, Estados e Municípios.
O Raio-X da Dependência Mineral no Brasil
A exploração do subsolo brasileiro movimentou a engrenagem econômica nas últimas duas décadas. Abaixo podemos ver os valores recolhidos em tributos de 2002 a 2026, pelo CFEM.
Trunfo das Commodities: Ranking dos Minérios Líderes em Arrecadação
O cruzamento de dados entre a variedade de minérios explorados e a receita gerada revela que a riqueza do subsolo brasileiro não caminha em linha reta. Os picos de faturamento mostram o super ciclo global do consumo de commodities. Podemos notar que o boom histórico de preços ocorrido em 2021 transformaram o perfil produtivo do país. Esta série cronológica é um espelho de como o orçamento público tornou-se altamente dependente da volatilidade do mercado mineral internacional.
Fonte dos dados: dados.gov.br — Sistema de Arrecadação (ANM)
Minérios Extraídos × Valor arrecadado por ano
fonte: Recolhimento por Ano / ANMMontanha-Russa das Commodities: O Preço da Dependência Mineral
Longe de ser uma receita previsível, o cofre das cidades mineradoras vive sob o ritmo frenético do mercado global. A CFEM é uma equação instável que cruza três variáveis imprevisíveis: o volume extraído, o preço da tonelada em dólar e a oscilação do câmbio internacional. Quando a economia global desacelera, a receita desaba, transformando o planejamento orçamentário das prefeituras em um verdadeiro jogo de sobrevivência. Para os Municípios que apostaram todas as suas fichas no subsolo, a volatilidade não é apenas um gráfico — é o desafio real de manter hospitais, escolas e serviços públicos funcionando quando as commodities entram em queda.
Termômetro da Dependência Mineral
Variação percentual anual da arrecadação*Em 2002 teve início a arrecadação da CFEM, o que faz 2003 saltar +780.000% e distorcer a escala — por isso o gráfico começa em 2004. A barra de 2026 (dourada) tem dados apenas do 1º Semestre.

Histórico Consolidado: Evolução Anual
Para entender a magnitude do impacto mineral no Brasil, é preciso olhar o total da arrecadação do CFEM. Este histórico cronológico de 2002 a 2026 funciona como uma radiografia da nossa economia. Os dados identificam os momentos em que o subsolo brasileiro bateu recordes históricos de arrecadação.
| Ano | Valor arrecadado (R$) | Minérios Extraídos | Variação anual |
|---|
*2002 foi excluído desta tabela: o sistema estava recém-criado e arrecadou apenas R$ 6,5 mil em 3 cidades, um valor residual que não representa o ano. Por isso a variação de 2003 aparece como "—".
O Mapa do Tesouro: Quem Domina a Extração Mineral no Brasil
A riqueza mineral brasileira está longe de ser distribuída de forma igualitária. Apenas dois Estados — Minas Gerais e Pará — monopolizam os primeiros lugares do ranking nacional devido às suas gigantescas reservas minerais. Ao analisar o desempenho dos produtores das principais substâncias mais cobiçadas do mercado, o painel revela um retrato impressionante da nossa dependência econômica em relação a essas commodities. O subsolo dita o ritmo da economia regional e define quais Estados comandam o PIB extrativista do país.
Estados que mais produzem
maior → menorMinérios mais extraídos
por valor arrecadadoOs Donos do Subsolo: Um Duopólio Bilionário
Em 2025, Minas Gerais respondeu por 45,7% de toda a CFEM distribuída no país e o Pará por 39,5% — juntos, 85,2% do total nacional. Nenhum outro estado ultrapassa os 3%. É um retrato direto da geografia do minério de ferro: Quadrilátero Ferrífero mineiro de um lado, Carajás paraense do outro.
Uma impressionante concentração de 85,2% de toda a receita do CFEM está sob o controle de apenas dois Estados. A liderança mineira com 45,8% somada à força paraense com 39,4% cria um hiato geográfico insuperável para os demais Estados. Essa dependência extrema justifica o termo cidades minerodependentes.

Das minas até as prefeituras
A CFEM é arrecadada pela ANM e repartida todo mês entre os entes federativos, segundo a Lei 13.540/2017:
- 60% — Município onde ocorre a extração (lavra)
- 15% — Municípios afetados pela mineração (ferrovias, portos, dutovias, barragens de rejeito), critério definido pelo Decreto 9.407/2018
- 15% — Estado e Distrito Federal onde ocorre a produção
- 10% — União (ANM, Centro de Tecnologia Mineral, FNDCT e IBAMA)
A lei também recomenda — sem obrigar — que ao menos 20% dos recursos de Estados e Municípios sejam usados em diversificação econômica, ciência e tecnologia e mineração sustentável, e permite o custeio de professores da educação básica em tempo integral como única exceção ao uso com pessoal.
Minerais do Futuro: A Corrida Pelas Terras Raras
Embora o Brasil ainda não realize a separação química industrial dos 17 elementos de terras raras em larga escala, o país já lucra com eles de forma indireta. Em vez de abrir minas exclusivas, a indústria nacional extrai esses componentes ultra-estratégicos camuflados como subprodutos de minérios tradicionais. Indispensáveis para a fabricação de chips, superímãs e baterias que movem a transição energética global, atualmente a CFEM já taxa as substâncias que carregam esse passaporte para o futuro.
Geologia Estratégica dos Minerais de Alta Tecnologia
Valor arrecadado pelo grupo de minerais, 2002–2026Das Toneladas aos Gramas: O Volume Bruto dos Minérios que Carregam Elementos Críticos
A produção brasileira de terras raras hoje está camuflada sob setores já consolidados. Os elementos críticos viajam de "carona" nos minerais já extraídos. Enquanto o Pirocloro e o Nióbio batem recordes de escala em complexos como o de Araxá (MG), minerais utilizados para a produção de fertilizantes — como a Apatita, o Fosfato e a Rocha Fosfática — são utilizados na produção de milhões de toneladas anuais, deixando um rastro de subprodutos ricos em elementos de terras raras prontos para o reaproveitamento tecnológico.
Geologia Estratégica dos Minerais de Alta Tecnologia

Como Flutuam os Royalties das Matrizes Tecnológicas
A arrecadação da CFEM sobre este grupo de substâncias tecnológicas desenha um cenário de muita volatilidade. A entrada em operação de um único projeto de Nióbio ou Pirocloro, ou uma oscilação na demanda internacional por Zirconita, é capaz de inflar ou esvaziar os royalties de uma região inteira do dia para a noite. A receita gerada por gigantes do setor de fertilizantes flutua sob a demanda do agronegócio, enquanto minerais raros encontrados na Monazita dependem da corrida tecnológica.
Termômetro da Inovação: A Volatilidade Financeira das Terras Raras
O Amanhã das Cidades Mineradoras
Como os recursos gerados com os minerais são utilizados?
A verdadeira história desses dados não está gravada no volume de minério retirado da terra, mas sim no impacto que esse capital deixa na superfície. O dinheiro arrecadado hoje pelas prefeituras deve funcionar como o passaporte para o futuro dessas regiões, financiando a diversificação econômica, a inovação e serviços públicos duradouros.
